‘Abaporu’ era entrega de Tarsila para o Oswald, diz sobrinha-neta

A seguir, a entrevista concedida pela herdeira para a revista VEJA:

A crítica concorda com a sua tese sobre a origem do Abaporu? Nas escolas se ensina que a figura é a criatura do folclore que Tarsila evocou para resumir o ideário antropofágico. A Aracy Amaral (uma das mais importantes críticas da obra da artista) discordou por muito tempo, mas agora ela começa a considerar a minha tese. Tarsila pintou o quadro no auge da paixão por Oswald. O cabelo é exatamente o dela na época e a perspectiva é de alguém que se retrata nu em frente a um espelho inclinado, que era exatamente o que ela tinha em seu ateliê. Quando ele foi exposto pela primeira vez ainda não se chamava Abaporu – esse nome foi dado depois pelo Oswald e pelo (também escritor modernista) Raul Bopp. Tarsila chamou a obra de Nu, inclusive é esse o nome que consta no registro de sua primeira exposição. Era uma fase muito sensual da produção dela.

Houve alguma informação nova, para que a possibilidade passasse a ser considerada pela crítica e incorporada à história da arte? Sim. Repare no pé da figura da tela. O segundo dedo é desproporcionalmente grande, muito maior que o primeiro. Olhei muitas, mas muitas fotografias com a Tarsila para tentar saber como eram seus pés, mas ela vivia de sapatos fechados, quase desisti. No entanto, minha irmã, que chegou a conviver com ela até a adolescência (eu não tinha 8 anos quando ela morreu), me contou que lembra exatamente desse segundo dedo grande da nossa tia-avó. Hoje eu não tenho mais dúvidas sobre a ideia original do quadro. Era uma espécie de entrega: dela mesma, para o Oswald, que foi o grande amor da vida dela. Tanto é que quando eles se separaram ela fez questão de ter a tela de volta. Ela deu um De Chirico (pintor surrealista já reconhecido na época) para ele em troca do Abaporu.

Você reconhece que existe uma supervalorização do Abaporu em relação a outras obras da artista? Sim, acho que a obra ganhou esse contorno icônico justamente por causa da sua história. Porque, se formos avaliar, a Antropofagia tem A Negra e o Abaporu dentro dele, e não tem metade dos holofotes do Abaporu sozinho.

A venda em 1995 para o Malba incomodou muita gente pelo fato de uma obra-símbolo de brasilidade passar a pertencer a uma instituição argentina. Você acha que essa competição com o país-rival contribuiu com a imensa popularidade que a tela tem hoje? Ah, sim. Certamente tem isso também. Mas o Malba cuida maravilhosamente da obra da Tarsila. Eles fazem publicações lindíssimas. Emprestam a obra sem colocar obstáculo nenhum. Era o desejo da minha tia ver as suas obras em museus internacionais. Alguns marchands avaliaram na época que a venda do Abaporu mudou o patamar da arte brasileira no mercado internacional. E veio para o Brasil outras vezes depois da venda: voltou para os jogos olímpicos de 2016, antes, esteve em Brasília, em 2011, e agora está aqui em São Paulo.

Por que o segredo em torno do valor pago pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) pela tela A Lua? A especulação de que a instituição teria pago 20 milhões de dólares pela obra faz sentido a partir das negociações que você acompanhou? Vocês tentaram trazer a obra recém-comprada para a mostra? Por tudo que aconteceu a partir da retrospectiva da Tarsila no MoMA era natural que uma Tarsila quebrasse o recorde de venda de obra brasileira. Não sei realmente do valor, mas apostaria que foi bem mais alto do que se especula. Provavelmente a família pediu sigilo (a tela pertencia à coleção Feffer, família fundadora da fábrica de papel Suzano). Tentamos trazê-la, sim, mas ela acabou de entrar para o processo de restauração, infelizmente não foi possível, desta vez. 

Redação

Esta notícia foi publicada por um dos redatores do SeuJornal, não significa que foi escrita por um deles, na maioria dos casos, foi apenas editada.
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